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31 de maio de 2016

Onde te dói?

Todos nós em algum momento das nossas vidas passamos por uma situação que nos causou dor, pode ter sido muita ou pouca mas foi dor. E o que nos ensinam ao crescermos é que a dor deve ser evitada, começa pela física quando somos pequenos e logo, logo, escala para a emocional. Ao mesmo tempo também nos é ensinado a não chorar, a não mostrar o que sentimos, a não dizer o que pensamos e a dada altura não vivemos mais, somos máquinas formatadas que perderam a sua ligação com o instinto mais básico e mais salutar que o ser humano poderia ter. As emoções são a forma do nosso corpo regular a nossa saúde física e psicológica. As emoções são mensagens que temos ao nosso dispor para seguirmos os nossos caminhos acompanhados de um farol pessoal. As emoções são saudáveis e devem ser vividas.

Mas, não é isso que nos ensinam ao crescermos, seja de forma directa ou indirecta, por palavra ou por exemplo, e assim aprendemos a temer e a fugir daquilo que existe para nos proteger e guiar. Aprendemos a ignorar a "sensação na barriga", a raiva, a tristeza, até mesmo a alegria. Todas as emoções seriam sinal de fraqueza ou descontrolo. Mas porquê? Não é quando o bebé chora que percebemos que algo se passa? Não é a única forma de comunicação que ele tem, as emoções? O que muda quando crescemos? Porque é que não podemos também comunicar com as nossas emoções e vivê-las? Sentimos frio, calor, fome, mas também medo, dor, angústia, alegria, tristeza e muitas outras, porque não expressá-las?

Se nos explicassem para o que realmente serve a dor talvez o mundo fosse um pouco melhor. Se nos mostrassem que não é preciso temê-la ou escondê-la talvez fossemos seres humanos mais felizes, mais capazes, mais humanos. Às vezes basta dizer onde nos dói para a dor passar. E se ao longo do caminho fomos domesticados estamos sempre a tempo de resgatar esses instintos em nós, com calma, carinho e paciência, como um animal selvagem posto em cativeiro e que finalmente é devolvido ao seu habitat natural. 

Tudo é possível. Basta dizer onde dói.




27 de maio de 2016

O Poder da Integridade


No silêncio tenho vindo a pensar na integridade e no que ela significa. Dei-me conta de que não sei definir integridade e por isso decidi procurar o seu significado no dicionário:

Íntegro:

1. Inteiro, completo.
2. Que tem comportamento exemplar. = Honrado, recto

Integridade:

1. Qualidade de íntegro.
2. Carácter daquilo a que não falta nenhuma das suas partes.
3. Estado de são. de inalterável.
4.[figurado] Rectidão, honradez; pureza intacta.

Curiosamente, uma das definições vai de encontro àquilo em que eu tenho reflectido, inteiro, completo, carácter daquilo a que não falta nenhuma das suas partes.

Acho maravilhoso como uma simples palavra pode abarcar em si tanto conhecimento, tanta sabedoria, às vezes basta ir ao dicionário e ver o que ela significa. Neste caso em particular eu confirmei as minhas reflexões, como é que algo que está partido e dividido pode ser íntegro? Como é que se pode presumir a integridade física, mental, emocional e espiritual se as partes não estiverem onde se encontra o seu Todo? Como querer viajar por outras paragens se uma parte se encontra noutro tempo, noutro sítio, noutra parada? Como se defendem conceitos que existem dependentes de integridade se ela não existe em nós? E como é que essa mesma integridade se manifesta nas mais diversas esferas do nosso Ser?
ín·te·gro

"íntegro", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/%C3%ADntegro [consultado em 17-05-2016].
in·te·gri·da·de
(latim integritas, -atis)

substantivo feminino
1. Qualidade de íntegro.

2. Carácter daquilo a que não falta nenhuma das suas partes.

3. Estado de são, de inalterável.

4. [Figurado]  Rectidão, honradez; pureza intacta.

"integridade", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/integridade [consultado em 17-05-2016].
in·te·gri·da·de
(latim integritas, -atis)

substantivo feminino
1. Qualidade de íntegro.

2. Carácter daquilo a que não falta nenhuma das suas partes.

3. Estado de são, de inalterável.

4. [Figurado]  Rectidão, honradez; pureza intacta.

"integridade", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/integridade [consultado em 17-05-2016].

20 de maio de 2016

O silêncio das coisas partidas

Tinha cá por casa algumas coisas que precisavam ser reparadas, pequenas coisas, nada de mais. Apesar de me parecerem coisas sem grande importância não conseguia deixar de me sentir incomodada. A asa de uma chávena que adoro. O puxador da porta. Um íman de frigorífico que caiu e se partiu em dois. Os dias transformaram-se em semanas, as semanas em meses e eu sem os consertar, sem os colar e eles ali, todos os dias a incomodarem-me com o silêncio das coisas partidas. 

Muitas vezes tive tempo e oportunidade para me dedicar a estes objectos mas a minha atenção fugia sempre para outra coisa que talvez nem estivesse partida, apenas outra coisa.

Há duas semanas cheguei ao meu limite e antes sequer de entrar verdadeiramente em casa peguei na chave de fendas e arranjei o puxador que todos os dias se soltava da porta. Respirei. De dentro de mim surgiu um pequeno e estranho prazer que não consigo bem definir e a partir desse dia comecei a pensar nas outras coisas que ainda tinha para consertar. Nesse momento deu-se um fenómeno estranho mas que bate certo com a pessoa que sou, continuei a adiar o conserto dos ditos objectos mas não como antes, não para evitar qualquer coisa que eu nem sabia bem o que era, agora adiava para prolongar o prazer do momento da reparação. Certo. Sou assim, complexa.

Ontem porém, estava sentada no sofá a vegetar no meio dos meus pensamentos e levantei-me com um salto, peguei no íman, colei-o, peguei na chávena, colei-a e outra vez aquele pequeno e indizível prazer. Fechei os olhos e aproveitei o meu momento de glória. E que momento de glória.

Podia agora explicar-vos o paralelo que fiz enquanto estava com os olhos fechados e em silêncio. Podia agora falar das pequenas coisas partidas em nós, à nossa volta e cá dentro. Podia falar de como essas pequenas coisas se tornam por vezes grandes e de como as grandes se tornam pequenas. Podia dizer que pequeno não significa insignificante ou sem importância. Podia, podia, mas não vou fazê-lo. Vou deixar-vos apenas com o silêncio das coisas partidas. Quem sabe o que poderão fazer com ele.




13 de maio de 2016

Não, não é amor!

Ando há uns dias com este título na cabeça, viro, reviro, hesito, não me apetece falar. Mas a frase não me sai da cabeça e volta vezes e vezes sem conta, não, não é amor.
Quando eu era adolescente recordo que o meu conceito de amor era bem quadrado e o mais engraçado é que esse conceito da adolescência não era o mesmo que eu tinha em criança, estranho não é? Mas não tanto se nos debruçarmos melhor sobre o assunto com olhos de ver, com coração acima de tudo e sem medo.
O meu primeiro relacionamento marcante com alguém do sexo oposto deu-se precisamente nessa idade, na pré-adolescência se é que lhe posso chamar assim. Recordo com muita clareza as minhas barreiras naturais que outra pessoa poderá chamar de resistências mas que eu continuarei a chamar de barreiras naturais, porque hoje, mais consciente, percebo que a minha menina era muito mais sábia do que eu pensava. Recordo por exemplo a minha relutância/vergonha de usar uma aliança de compromisso, sentia-me estranha e até ridícula, cheguei mesmo a usá-la só quando estava com essa pessoa e todo o tempo que não estávamos juntos eu tirava-a. Conscientemente eu sabia que não tinha idade para aquilo e inconscientemente eu sabia que aquilo era uma coleira, uma forma de me ter marcada, a galinha com a anilha. Passado algum tempo porém ignorei toda esta intuição e o que a princípio me parecia estranho acabou por se entranhar de tal forma que mesmo depois deste relacionamento ter terminado e tudo o que com isso veio, eu insistia em usar a dita aliança de comprometida. A formatação foi pois bastante completa e bem feita, com a minha autorização e consentimento. Recordo também "pequenas" manipulações que me faziam sentir mal por ser livre, mal por querer estar com a minha família, mal por chegar atrasada, mal por falar com um amigo que é apenas e só isso. Um dos episódios que mais me marcou foi de um dia em que tive um "furo" na escola e toda a minha turma se juntou para conversar durante essa hora, quando a campainha tocou eu enchi-me de terror porque eu estava a conversar com um rapaz de quem esta pessoa tinha muitos ciúmes. A minha primeira reacção foi de cortar a conversa e ir para outro sítio. Tinha medo. Mas depois resisti e pensei que não havia mal nenhum, porque realmente não havia, e continuei a conversa que estava a ter. Infelizmente a reacção do meu namorado da altura foi chegar por trás do meu amigo e bater-lhe sem sequer lhe dizer uma palavra. Fui para casa nesse dia, não conseguia encarar ninguém da minha turma e apesar deste sinal claro e inequívoco eu decidi continuar.
Isto tudo para vos dizer que não, não é amor, tudo aquilo que nos ensinaram, tudo aquilo que nos foi passado. Não é amor a manipulação que nos impede de sermos nós mesmas. Não é amor dizerem-nos que nos escondem algo para sermos poupadas. Não é amor criticarem a roupa que usamos. Não é amor aquele aperto no braço e a pergunta que se lhe segue "onde vais assim vestida?". Não é amor o fazerem-nos sentir como propriedade. Não é amor fazerem-nos mal e depois dizerem que é amor. Não, não é amor! É tudo um jogo de poder! É tudo uma questão de insegurança mascarada de força. Minhas queridas, não é amor! E enquanto contarem essa preciosa mentira a vocês mesmas o ciclo vai seguir e perdurar e o que ao princípio era estranho depois entranha-se e vocês pensam que é assim mesmo, mas não é. A possessividade, a agressividade, seja ela verbal ou física, o rebaixar, tudo isso, não é amor e não é culpa vossa.
E hoje temo que exista uma violência bem mais perigosa que infelizmente não deixa nódoas negras, uma violência que não dá para apontar o sítio onde magoa mas que talvez deixe mais marcas que uma perna partida. As palavras tornaram-se o palco desta violência, são dissimuladas, disfarçadas de desculpas e doçuras, mas não se iludam, elas não deixam de ser o que são, violências contra quem vocês são, pequenas espadas apontadas à vossa força e à vossa resistência que aos poucos vocês vão deixando de lado e cedendo às investidas perniciosas de quem vos diz amar. E um dia acordam, vão ao espelho e a pessoa que lá está não são vocês mas uma sombra apenas, completamente sugada e quase sem vida e por trás surge alguém a dizer "Amo-te"... mas não é amor... é falta dele, por ti mesma(o).

23 de março de 2016

Intenção

Que eu adormeça com intenção,
Que eu sonhe com intenção,
Que eu acorde com intenção,
Que eu me lave com intenção,
Que eu me penteie com intenção,
Que eu me seque com intenção,
Que eu prepare as minhas refeições com intenção,
Que eu mate a minha fome com intenção,
Que eu mate a minha sede com intenção,
Que eu respire com intenção,
Que eu fale com intenção,
Que eu escreva com intenção,
Que eu pinte com intenção,
Que eu veja com intenção,
Que eu ame com intenção,
Que eu chore com intenção,
Que eu sofra com intenção,
Que eu peça ajuda com intenção,
Que eu concretize com intenção,
Que eu cure com intenção,
Que eu viva com intenção,
Com intenção eu nasci,
Com intenção que eu parta,
Porque é na intenção que eu e a Mãe nos encontramos e damos as mãos.

Artista Igor Zenin - Encontrada no blog https://laurenelegrange.wordpress.com



9 de março de 2016

Carta aos meus filhos

Hoje pensei em vocês como já não fazia há muito tempo. Pensei em vocês porque hoje aprendi uma coisa muito importante e fiquei com medo de a esquecer antes de vocês "existirem", então vou escrever para não esquecer e mesmo que esqueça depois de o escrever esta carta vai fazer com que me lembre e eu não tenha escapatória possível.
Hoje aprendi que o amor a nós é muito importante, mais importante do que qualquer outro amor que vocês possam ter nas vossas vidas e sobretudo mais importante que o amor que aparece nos contos de fadas. Meus queridos, espero ter a força e a presença de espírito para vos explicar que vocês não têm de ser o "príncipe no cavalo branco" ou a "donzela presa na torre" de ninguém!!! Esta é a maior mentira de todos os tempos!!! E eu não me posso esquecer de vos dizer isto!!! É muito importante!!!

Quero dizer-vos que mesmo o amor que vocês têm a mim e ao vosso pai não pode nem deve ser maior que o amor que vocês devem a si mesmos e que se algum dia eu vos fizer sentir o contrário peço-vos, zanguem-se comigo e chamem-me mentirosa e mostrem-me esta carta e eu dou-vos a minha palavra que vou acordar do meu umbigo. Quero explicar-vos também que a mim vocês não devem nada da mesma forma que eu não devo a vocês, nada para além de vos preparar para o mundo, para a vida e para vocês mesmos mas a partir daí é por vossa conta e eu por minha. Isto não quer dizer que vou deixar de vos amar ou que vos vou abandonar ou deixar de me importar convosco, é precisamente o contrário é preciso muito amor para deixar alguém viver a sua própria vida, espero que as nossas conversas sejam eternas e enriquecedoras mas o meu papel é mostrar-vos como serem pais e mães de si mesmos e vai ser muito díficil para mim porque eu sou uma protectora natural, mas vou dar o meu melhor.

Existe outra coisa muito importante, vocês vão criar expectativas em relação a mim, esqueçam-nas, eu não sou nada do que vocês possam imaginar, nem sou perfeita como eu sei que vocês vão pensar e  para vos ajudar a matar todas essas expectativas eu vou falar-vos de mim, vou contar-vos os meus feitos e os meus desfeitos, vou contar-vos as minhas cores para que percebam que tal como vocês eu sou apenas e tão só humana, nada mais, cheia de falhas e qualidades, na busca de mim mesma, talvez vocês também queiram buscar-se a si mesmos, não se preocupem eu também vou matar todas as minhas expectativas em relação a vocês, vai ser díficil porque eu já as tenho, mas vou dar o meu melhor e se eu falhar ou vocês falharem, não faz mal, estamos aqui na mesma para avançarmos mais um bocadinho. Vou mostrar-vos todas as chagas que eu decidi transformar em canteiros de flores, flores essas que talvez possamos colher juntos e também aquelas às quais eu teimo agarrar-me porque tenho pena de mim mesma. Quero explicar-vos que a dor não é nem má nem boa, apenas é e o que acontece a seguir depende do que nós fazemos com ela, ou continuamos a alimentar a chaga ou regamos para ver que flor vai saír dali. E está tudo bem na mesma. Não faz mal chorar, não faz mal falar do que sentimos, não faz mal sentir o que sentimos e depois desta aceitação vamos ver o que podemos fazer com isso tudo.

O melhor ensinamento que um dia eu vos poderei transmitir é mostrar-vos que me amo mais a mim do que a vocês e espero que vocês se amem mais a vocês do que a mim.

4 de março de 2016

Viver ou "viver"

Há muito, muito tempo, antes das histórias falarem de homens e mulheres as pessoas viviam. Não existiam livros, não existiam manuais e as pessoas viviam. E tudo o que hoje temos ao nosso dispor é fruto de pessoas, de seres humanos que Viviam. Para viver eles não precisavam de "instruções", apenas deles mesmos. Eu sei, de certa forma a vida deles era mais fácil do que a nossa, a tua, não existiam pressões, influências, não como conhecemos hoje, ou desconhecemos. O homem e a mulher recebiam orientações mas do interior. As receitas surgiam do interior. As poções surgiam do interior. A vida surgia do interior. Algures no caminho começamos a "viver", a "viver" e a receber instruções do exterior. E as receitas que fazemos já não são as nossas, bem como as histórias que contamos e ouvimos, são tudo menos nossas e assim prosseguimos a "viver" pensando que estamos a viver. Enganam-se, não estamos. Nada é nosso, nada é verdadeiro até que saia de nós mesmos e nesse momento o bolo que tu cozinhares é o bolo de que realmente precisas.



18 de fevereiro de 2016

Eu não sou feminista,Eu Sou Mulher

Em menina havia coisas que me incomodavam profundamente, coisas que na altura eu não sabia a que categoria de acontecimentos pertenciam mas que me incomodavam. Incomodavam-me ao ponto de beirar a revolta e recordo que uma das etiquetas que foi atribuída em criança foi a de "respondona". Ao crescer fui sentindo muitas outras coisas que me incomodavam e me revoltavam, outras etiquetas foram surgindo, pessoas foram se afastando de mim, outras foram chegando. Qualquer uma dessas etiquetas remetia sempre para o facto de eu ou não estar satisfeita com alguma coisa ou simplesmente por pensar de maneira diferente do que seria esperado de uma mulher. Fui tendo pequenos sinais a respeito disto, fosse pela minha forma de vestir, fosse pela minha forma de estar e sorrir, fosse simplesmente pelas coisas que eu partilhava com toda a naturalidade. Os rótulos foram se sucendendo, um atrás do outro. Confesso que momentos houve em que eu mesma fiquei confusa, muito confusa com a minha própria identidade e com a autenticidade dos rótulos que me eram atribuídos. Tive momentos que chorei as injustiças e tive momentos que me chorei com pena de mim mesma por ser todos aqueles rótulos que todas aquelas pessoas me deram, afinal, só podia ser verdade não é?

Hoje eu sei que não é assim e sei que todos os que me deram rótulos estavam errados e que no fundo bem no fundo eles não sabem quem são e muito menos o que eu Sou e Quem eu Sou e que todos aqueles rótulos provinham e provêem de algo que lhes foi ensinado e transmitido, de algo com que também eles e elas cresceram portanto é normal que não soubessem fazer melhor, para quê questionar? Para quê pensar de outra forma senão existe outra forma?

Por isso hoje me sento aqui em frente do meu computador perfeitamente confortável quando vos digo, eu não sou feminista, eu Sou Mulher e percebo também que o que eu sou, Mulher, foi a razão de todas as vezes em que eu me sentia incomodada com todos os rótulos e com os olhares de esguelha. É por ser Mulher que me sinto incomodada quando ouço "mulheres" fazerem comentários sobre outras mulheres que nunca saíriam da boca de uma Mulher, "mulheres" que foram ensinadas a dizer coisas que um "homem" diz, "mulheres" a quem lhes foi dado quando nasceram um pénis invisível e que pesa mais do que o útero que carregam. Eu incomodava-me e sentia-me estranha porque eu Sou uma Mulher que gosta de Mulheres e que fica triste quando "mulheres" se tratam como homens e se julgam como homens.

Por isso não, eu não sou feminista e o simples facto de existir a necessidade desta nomenclatura é um sinal inequívoco de que algo está mal, algo está profundamente mal e podre dentro de nós e a nossa sociedade é apenas e somente um reflexo disso mesmo. Eu Sou Mulher e assumo-me como tal e com tudo aquilo a que tenho direito e com todos os meus deveres também e o ser Mulher vai muito além da igualdade de salários, e posições numa empresa, isto é tão e somente apenas um pequeno reflexo de algo muito maior e bem mais problemático. É tão mais profundo do que isto. E eu desejo do fundo do meu coração que todas as mulheres comecem a sentir em si esta verdade e se assumam como aquilo que são, Mulheres.

Imagem: Nicholas Roerich

6 de novembro de 2015

Gotas de chuva

Hoje tive oportunidade de ler a história de um rapazinho que sensibilizado pela falta de água em África resolveu ajudar. Resumidamente, começou a fazer pequenos trabalhos na casa de vizinhos e familiares e doou esse dinheiro a uma associação que com as doações abria poços perto das vilas. A sua acção teve uma reacção que eu acredito não ter sido preconizada pelo pequeno rapaz, os seus amigos e vizinhos decidiram fazer o mesmo. Isto faz-me lembrar um pensamento que eu tenho de cada vez que ando de carro quando chove, e se nós formos como as gotas que estão na janela do carro? Uma gotinha empurrada pelo vento que vai agregando outras tantas na sua passagem transformando-se num pequeno veio de água à medida que vai agregando mais e mais gotinhas todas elas tão pequeninas? E se a nossa acção for como o vento que a empurra na direcção das outras? E se afinal aquilo que nós fazemos for importante? Realmente importante, não aquela balela que ouvimos para trabalhar a insegurança, tipo importante como um prego que segura a perna de uma cama? E se nos mentiram de todas as vezes que nos disseram que não podemos mudar o mundo? Não sei... mas espero bem que não me tenham mentido e eu seja realmente insignificante caso contrário vou ficar muito fodida.
Pensamento encontrado por acaso em InSónias (é melhor voltar a fechar os olhos)

22 de agosto de 2014

Sabes o que vales?

Há dias tive uma conversa em que me falaram de uma pessoa que sabia exactamente o seu valor. Por saber exactamente aquilo que vale, essa mesma pessoa segue firme nas suas decisões e demais coisas que abalariam o comum dos mortais, a ela não lhe tocam.
Claro que isto me deixou a pensar e a interrogar-me sobre o meu próprio valor. Imaginei formas de o medir, de o colocar em garrafinhas dividido em quantidades iguais, 100ml de valor, 250ml? Quantas garrafas consigo?
O certo é que segundo a minha imaginação, alguém que sabe o seu exacto valor deve certamente ter um "core" feito de titânio, o vento vai, o vento vem e ela continua lá, inabalável e sem ferrugem. Fiquei curiosa. Essa história de conhecer as fronteiras do próprio alcance deixou-me curiosa. Muito curiosa.




4 de abril de 2010

Domingo de Páscoa no shopping

Dia de descanso, assim dizia o Senhor, dia de confraternização e amêndoas, cabrito e batata assada regada com um belo de um vinho e eu enfiada no centro comercial. A loja está deserta, mas com toda a certeza a partir das quatro da tarde começam a chegar os primeiros visitantes do Domingo de Páscoa, com as suas roupas domingueiras, algumas oferecidas pelas madrinhas, outras guardadas no fundo de um guarda-vestidos com todo o carinho e bolas de naftalina, especialmente para este dia. São camisolas coloridas de decote redondo e uns chinos no caso dos senhores. As senhoras passeiam um conjunto com as cores deivdamente coordenadas e escolhidas a dedo para esta ocasião. Às crianças não lhes resta nada, senão resignarem-se a um dia inteiro de repreensões que visam a protecção das ditas farpelas oferecidas pelas madrinhas no sábado anterior. E eu aqui... atrás do balcão enquanto os observo incrédula, neste ritual de "passeamento" de roupas, num dia dito de descanso e convívio. Que raio!!! Mas porque é que não estão em casa a beber uns copos e a falar de futebol e do último feito do Joãozinho na escola??? O que tem o shopping assim de tão especial, que vos faz abandonar o conforto dos vossos lares e famílias para se passearem numa rua artificial com lojas a apelarem ao nosso consumismo?




Tento encontrar resposta, mas esta demanda revela-se complicada... até que algo me surge na mente... será que é mais fácil enganar o amâgo dos nossos seres neste sítio vazio de tudo e cheio de nada? Será mais fácil tentar preencher o vazio que se revela cada vez maior com um passeio pelas caixas registradoras de uma loja que faz roupa igual para toda a gente? Façamos então parte deste grande rebanho, sigamos as grandes tendências e sejamos os fervorosos fiéis do Senhor Consumismo. Este que também tenta fazer algo em 7 dias... ainda que de forma oposta ao que o original pretendia. No 1º dia chegou e veio o Lucro, no 2º criou o marketing e cresceu o Lucro, no 3º dia, bem já não me lembro, mas posso dizer que até ao 7º o propósito foi sempre o Lucro. E nós acedemos à criação deste novo Senhor, colocamos flores à porta de nossas casas, abrimos as portas ao cortejo e beijamos a sua cruz, digam-me, lembraram-se de a desinfectar antes de lhe darem o beijinho?



E eu continuo aqui, por trás de um balcão, a imaginar aquele cabrito fantástico que só o meu pai sabe fazer, as parvoíces do meu irmão e aquele vinho do Porto que o meu avô traz da aldeia. A meio da tarde já estaria embriagadíssima e o meu pai iria resmungar comigo, porque a menina dele NÃO BEBE NEM FICA BÊBADA. Não paizinho, está descansado, é só no Domingo de Páscoa, Natal, S. João e aniversários. Hoje é Domingo de Páscoa, estou a trabalhar, por isso é menos um bebedeira regada a vinho do Porto... caraças que aquele do avô é mesmo bom!!!



Fiz a minha primeira venda, desde que entrei às 10h... Durex Play efeito calor, pelo menos alguém vai festejar o Domingo de Páscoa. LOL Vamos preencher vazios sem ser no shopping, ora aí está uma bela alternativa.



E continuo atrás do balcão... a sonhar com o vinho do Porto e o cabrito, naquela mesa cheia de família e sorrisos que me aquecem o coração... bem mais do que um Domingo de Páscoa num centro comercial...



P.S. - pelo menos o meu paizinho mandou-me comida de Domingo de Páscoa dentro de um pacote de manteiga (para economizar os tupperwares) como faz com o meu irmão, quando ele está de serviço no quartel na noite de Natal... parece que também eu, estou de arma na algibeira, aguardando apenas a próxima alma que ouse entrar na loja e assaltar-lhe tudo o que traz na algibeira... uma vez que a Alma, essa foi penhorada quando passaram a porta principal.

8 de janeiro de 2010

Os normais

Tive oportunidade de participar numa "acesa discussão" sobre a possibilidade de casamento entre homossexuais... pensava eu que a esta altura dos "acontecimentos" as mentalidades estariam já, como poderei dizer, um pouco mais "receptivas", pois é, enganei-me!!! E qual não foi o meu espanto quando dei conta que alguém bem mais novo do que eu dizia bem lá do alto da sua pose: "Não concordo, nem pensar, onde é que já se viu". A princípio pensei que falavam de tremoços... que pena, a conversa seria bem melhor. Senti aquele calorzinho que costuma acompanhar os meus ataques de raiva a subirem bem do intímo das minhas entranhas. E digo entranhas para poderem perceber que esta m**** me irrita de uma forma tão profunda que só uma palavra como esta seria capaz de materializar o asco que esta conversa me deu.
Continuando... para estas pessoas a homessexualidade não é normal. Mas, o que é o normal? Aquilo que a maioria faz??? Hmmmm Mas matar pessoas também não é normal e não vejo reacções tão "calorosas" como aquela que assisti hoje. Ou será que quando se fala em homossexualidade as pessoas só pensam no acto sexual em si? E o AMOR cacete???? Será que o AMOR que duas pessoas sentem uma pela outra é SUJO??? Ah e tal, promiscuidade e tal. Ora então vamos falar de promiscuidade, ménages é na boa né? Não é promíscuo. Swing, também é na boa (afinal é só traição consentida). E para não falar da traição em si que para mim é simplesmente o acto mais promíscuo que pode existir, mas isso também é na boa, não é? São todos machos e no fim levam medalhas para casa na forma de DST.
Vamos lá falar de AMOR!!! É AMOR e ponto final. Ninguém tem nada a haver com isso, e todos têm direito à sua liberdade desde que isso não interfira com a dos outros.
Outro comentário: "Pois, mas a partir do momento em que uma coisa destas se torna "normal" e está prevista na lei as pessoas até vão olhar para o lado e vão considerar a hipótese de experimentar." GRANDE LOLADA (e desculpem por favor as palavras). Isto não é uma epidemia meus senhores, não se pega pelas vias respiratórias, não vamos estar sujeitos a contágios. MEU DEUS!!! Estamos a viver uma mudança de Eras, vamos abraçá-la e simplesmente viver o AMOR! Quantas pessoas não viveram oprimidas e escondidaas com medo precisamente destes comentários e pensamentos??? Também era perfeitamente normal ter escravos e vivermos numa ditadura, vamos deixar o mundo evoluir e com ele as suas gentes. Chega de mentalidades "tacanhas".
O que me irrita ainda mais é que as pessoas nem sequer sabem do que falam. Eu também não sei como é ou como deixa de ser, mas estou-me nas tintas!!! É AMOR... e é só isso que interessa. A maior promiscuidade que existe está na mentira, na falsidade, na hipocrisia, na inveja, no ciúme e nessas coisas todas que experimentamos diariamente. Com isso ninguém se revolta, pois não? Porque é "normal". Porque é bonito "trapacear" as pessoas para conseguir uma posição melhor no emprego, olham para nós e dizem: ah, ali está um líder, ambicioso e com garra. LINDO!!! Chegar a casa com o cheiro de outro homem no corpo e beijar o marido, fazer o jantar, deitar na mesma cama e dizer o amo-te mais falso que existe. E as amigas dizem: aquela gaja é que se diverte, é mesmo prá frente. Comprar uma roupa nova, entrar no escritório, ninguém comenta, apesar de sentirmos aqueles olhares pesados na nuca: "Aquela gaja nem dinheiro tem para comer e anda sempre com roupa nova, ainda por cima é pirosa". A inveja fica-nos tão bem.

Por isso, e para não alongar mais o meu destilar de veneno, vivam e deixem viver, amem e deixem AMAR. E quanto à adopção de crianças, concordo TOTALMENTE! O que importa não é o facto de existir um homem e uma mulher, mas sim a presença de valores fortes e sobretudo muito AMOR. Com AMOR ninguém degenera nem vira delinquente, com AMOR tudo floresce nada murcha, com AMOR a vida torna-se realmente naquilo que ela deve ser e não no oposto.

P.S. com isto não quero dizer que não respeito as opiniões contrárias, respeito, mas estas pareceram-me demasiado ofensivas e absurdas.

E agora um sonzinho para animar a maltinha

Rita Lee - Balada do louco