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5 de junho de 2016

Esse bicho chamado amor-próprio

Acredito que não exista uma mulher que a dada altura da sua vida não tenha ouvido falar, a respeito de alguém ou dela mesma, de amor-próprio. Acredito que todas devam ficar como eu própria fiquei, com a ideia de que esse tal de amor-próprio não é nada mais do que o Santo Graal do qual toda a gente fala mas poucos ou nenhuns sabem dizer realmente onde ele se encontra.

Tenho andado eu mesma nessa tal de busca pelo Santo Graal. Ainda não o encontrei, não completamente, e esta terá sido talvez, uma das grandes lições que tive nesta trabalhosa demanda, sabem, é que eu pensei que era algo que se encontrava num momento e por inteiro, quase como um passe de mágica ou como uma chave que perdemos e um dia ei-la e a gaveta que não se abria pode por fim, ser aberta. Felizmente não é assim que acontece, onde estaria a piada se assim fosse? O amor-próprio conquista-se como ao animal assustado que salvamos das ruas, aos poucos com muito carinho e paciência, por nós mesmas acima de tudo. Pode ser frustrante e na maior parte das vezes a única coisa que dá vontade é de desistir e mandar tudo para o alto, afinal como é que se conquista um conceito? Como se ganha algo que não tem forma e que acima de tudo só conhecemos na teoria e de ouvirmos outros falarem, sobretudo quando nem esses outros nos podem dizer muito sobre essa coisa que não se consegue sentir com as mãos?

Bem, da pouca experiência que tenho posso assegurar-vos de que vale todo o trabalho mesmo que até aqui eu tenha conquistado 1% do todo que há para alcançar. A questão é que esse 1% já faz toda a diferença em mim e a diferença que há em mim reflecte-se no que me rodeia e isso, não tem preço.

Não existe propriamente uma fórmula para chegar a ele, às vezes é algo tão simples como dizer o primeiro não ou um olhar no espelho e de repente sentir uma pontinha de amor pelo reflexo. Não o poderei dizer porque não é igual para todos e porque sem o esforço da descoberta a conquista não é válida, não solidifica. E o que é para mim o amor-próprio?

O amor-próprio é o que guia a mão na busca dos sonhos que o nosso coração acalenta. O amor-próprio é o NÃO que nos desvia dos que nos tentam manipular. O amor-próprio é o afago que sentimos quando a vida nos apresenta os seus desafios. O amor-próprio protege-nos e liberta-nos. É o amor-próprio que guiará os nossos filhos com toda a segurança neste mundo quando não estivermos por perto. É uma oração de amor a nós mesmas:


Amor-próprio que estás em mim, 
Guia-me pelas estradas da vida 
Assim como me guias pelas estradas de mim mesma, 
Perdoa-me quando te ignoro assim como eu me perdoo quando o faço, 
Amor-próprio que estás em mim, 
Que eu seja capaz de te sentir nas horas mais escuras e partilhar nas horas mais claras. 

Com amor, nesta hora clara, partilho convosco.
SG

13 de maio de 2016

Não, não é amor!

Ando há uns dias com este título na cabeça, viro, reviro, hesito, não me apetece falar. Mas a frase não me sai da cabeça e volta vezes e vezes sem conta, não, não é amor.
Quando eu era adolescente recordo que o meu conceito de amor era bem quadrado e o mais engraçado é que esse conceito da adolescência não era o mesmo que eu tinha em criança, estranho não é? Mas não tanto se nos debruçarmos melhor sobre o assunto com olhos de ver, com coração acima de tudo e sem medo.
O meu primeiro relacionamento marcante com alguém do sexo oposto deu-se precisamente nessa idade, na pré-adolescência se é que lhe posso chamar assim. Recordo com muita clareza as minhas barreiras naturais que outra pessoa poderá chamar de resistências mas que eu continuarei a chamar de barreiras naturais, porque hoje, mais consciente, percebo que a minha menina era muito mais sábia do que eu pensava. Recordo por exemplo a minha relutância/vergonha de usar uma aliança de compromisso, sentia-me estranha e até ridícula, cheguei mesmo a usá-la só quando estava com essa pessoa e todo o tempo que não estávamos juntos eu tirava-a. Conscientemente eu sabia que não tinha idade para aquilo e inconscientemente eu sabia que aquilo era uma coleira, uma forma de me ter marcada, a galinha com a anilha. Passado algum tempo porém ignorei toda esta intuição e o que a princípio me parecia estranho acabou por se entranhar de tal forma que mesmo depois deste relacionamento ter terminado e tudo o que com isso veio, eu insistia em usar a dita aliança de comprometida. A formatação foi pois bastante completa e bem feita, com a minha autorização e consentimento. Recordo também "pequenas" manipulações que me faziam sentir mal por ser livre, mal por querer estar com a minha família, mal por chegar atrasada, mal por falar com um amigo que é apenas e só isso. Um dos episódios que mais me marcou foi de um dia em que tive um "furo" na escola e toda a minha turma se juntou para conversar durante essa hora, quando a campainha tocou eu enchi-me de terror porque eu estava a conversar com um rapaz de quem esta pessoa tinha muitos ciúmes. A minha primeira reacção foi de cortar a conversa e ir para outro sítio. Tinha medo. Mas depois resisti e pensei que não havia mal nenhum, porque realmente não havia, e continuei a conversa que estava a ter. Infelizmente a reacção do meu namorado da altura foi chegar por trás do meu amigo e bater-lhe sem sequer lhe dizer uma palavra. Fui para casa nesse dia, não conseguia encarar ninguém da minha turma e apesar deste sinal claro e inequívoco eu decidi continuar.
Isto tudo para vos dizer que não, não é amor, tudo aquilo que nos ensinaram, tudo aquilo que nos foi passado. Não é amor a manipulação que nos impede de sermos nós mesmas. Não é amor dizerem-nos que nos escondem algo para sermos poupadas. Não é amor criticarem a roupa que usamos. Não é amor aquele aperto no braço e a pergunta que se lhe segue "onde vais assim vestida?". Não é amor o fazerem-nos sentir como propriedade. Não é amor fazerem-nos mal e depois dizerem que é amor. Não, não é amor! É tudo um jogo de poder! É tudo uma questão de insegurança mascarada de força. Minhas queridas, não é amor! E enquanto contarem essa preciosa mentira a vocês mesmas o ciclo vai seguir e perdurar e o que ao princípio era estranho depois entranha-se e vocês pensam que é assim mesmo, mas não é. A possessividade, a agressividade, seja ela verbal ou física, o rebaixar, tudo isso, não é amor e não é culpa vossa.
E hoje temo que exista uma violência bem mais perigosa que infelizmente não deixa nódoas negras, uma violência que não dá para apontar o sítio onde magoa mas que talvez deixe mais marcas que uma perna partida. As palavras tornaram-se o palco desta violência, são dissimuladas, disfarçadas de desculpas e doçuras, mas não se iludam, elas não deixam de ser o que são, violências contra quem vocês são, pequenas espadas apontadas à vossa força e à vossa resistência que aos poucos vocês vão deixando de lado e cedendo às investidas perniciosas de quem vos diz amar. E um dia acordam, vão ao espelho e a pessoa que lá está não são vocês mas uma sombra apenas, completamente sugada e quase sem vida e por trás surge alguém a dizer "Amo-te"... mas não é amor... é falta dele, por ti mesma(o).